quarta-feira, 5 de setembro de 2018

OS 110 ANOS DE "SANGUE", DE DA COSTA E SILVA



Republico este texto, de 2008, agora para os 110 anos da estreia de Da Costa e Silva.



SANGUE: UM CENTENÁRIO




Na vida literária do Brasil, o período que engloba as duas primeiras décadas do século XX, mas que na verdade começou um pouco antes e se estendeu muito além dessa limitação cronológica, passou a ser vulgarmente conhecido entre nós como Pré-modernismo. Tal denominação, na historiografia literária brasileira, traduz um conceito muito mais histórico ou sociológico do que estético, e é um dos mais vagos, dos menos completamente definidos entre os muitos que acompanharam o desenrolar das escolas, da época colonial até a nossa contemporaneidade que assistiu à sua dissolução. Trata-se, na verdade, de um conceito negativo, que só se pode definir pela negação, referindo-se àquilo que, sem ser ainda modernista, já não seria mais exatamente parnasiano ou simbolista. Tasso da Silveira preferia usar a palavra sincretismo para definir o período, palavra talvez mais exata, mas que não alcançou a fortuna geral da outra. As duas primeiras décadas do século, de fato, assistiram a uma coexistência entre os frutos finais do Simbolismo e do Parnasianismo, o surgimento de seus epígonos e o pressentimento de novas tendências que estavam no ar. Se lembrarmos que Bilac morreu em plena atividade em 1918, deixando para publicação póstuma Tarde, um dos seus grandes livros, se lembrarmos que o admirável Alphonsus de Guimaraens estava no auge de sua força criadora, em seu quase exílio em Mariana, até a sua morte, em 1921, percebe-se o evidente acavalamento de estilos e propostas nesse período, que, grosso modo, se encerraria com a data icônica da Semana de Arte Moderna, em 1922, embora um Alberto de Oliveira, só como exemplo, continuasse vivo até 1937, um Augusto de Lima até 1934, assim como um Vicente de Carvalho até dois anos após a mencionada Semana. Uma das tentativas de delimitação cronológica de qual seria o período de vigência do Pré-modernismo situa-o, habilmente, entre dois eventos marcantes, a publicação de Os sertões em 1902, talvez o mais importante marco de uma virada de mentalidade quanto à visão que o povo brasileiro fazia de si próprio, e a já mencionada Semana de Arte Moderna de 1922. De maneira muito aproximativa, portanto, duas décadas, as duas primeiras do século passado, nas quais estrearam grande parte dos que depois seriam os nomes maiores do Modernismo, embora nesse momento se encaixassem perfeitamente na noção de sincretismo a que nos referimos, sincretismo que dominava a literatura do período, assim como o ecletismo dominava a arquitetura.

         Sangue, livro de estreia de da Costa e Silva, e sua obra mais emblemática, vem à luz em 1908, há exatamente um século, o título em grande letras vermelhas, como se repetiria no Eu quatro anos depois. Se mapearmos alguns dos títulos realmente importantes da poesia brasileira no período, e que de algum modo se relacionam com a obra em questão, faz-se necessário relembrar a publicação póstuma de Faróis, de Cruz e Sousa, em 1900 — livro que, sob vários aspectos, inaugura a poesia moderna no Brasil —, a de Kiriale, de Alphonsus de Guimaraens, em 1902, embora escrito uma década antes; a publicação em 1905, em Paris, por Nestor Victor, do sublime Últimos sonetos, de Cruz e Sousa; o surgimento, em 1908, dos dois livros de poesia mais marcantes do ano, ambos estreias, o já mencionado Sangue, do grande poeta piauiense, e Apoteoses, de Hermes Fontes; o inesperado e bombástico surgimento do Eu, de Augusto dos Anjos, em 1912, e, estendendo mais o período, a estreia de Manuel Bandeira com A cinza das horas, em 1917, o canto de cisne de Bilac com o já lembrado Tarde, em 1919, e o que pode ser tomado como o encerramento do período clássico do Simbolismo no Brasil, a publicação de Mistérios, do ex-padre José Severiano de Resende, em 1920, e a edição póstuma do magistral Pastoral aos crentes do Amor e da Morte, de Alphonsus de Guimaraens, em 1923.



         Ao contrário de Apoteoses, com que Hermes Fontes surgiu de fato apoteoticamente em 1908, livro sem dúvida ligado ao Parnasianismo até na teorização do seu prefácio, apesar de certas estranhezas nada ortodoxas para aquela escola, Sangue é, sem qualquer dúvida, um grande título da poesia simbolista brasileira. O “Cântico do Sangue”, que abre o livro, cumpre nele um papel arquitetônico semelhante ao que “Antífona” cumpre em Broquéis, embora nada se encontre, em Da Costa e Silva, da espécie de delírio verbal muito marcado naquele livro, e do qual Cruz e Sousa se afastará gradativamente. Por outro lado, é impossível não sentir o influxo de Cruz e Sousa no belíssimo “Turris Lucifera”, que poderia perfeitamente estar entre os Últimos sonetos, o que não é pouca coisa:


Torres altas dos nobres sentimentos,
Dos nobres sentimentos mais supremos,
Alturas imortais que apenas vemos
Com o auxílio dos grandes pensamentos;

Soberbos, colossais elevamentos
Onde não toca o extremo dos extremos,
E em cuja pompa nosso olhar perdemos
Na transcendência dos deslumbramentos;

Torres varando a névoa dos Espaços,
De onde distende bênçãos sobre os mundos
A Morte, abrindo a cruz dos longos braços...

Torres em que, na eterna trajetória,
O Ser dos sentimentos mais profundos
Ascende para Deus e para a Glória!...


         O influxo de Cruz e Sousa sobre Da Costa e Silva foi, no entanto, menos marcante e definidor do que sobre Augusto dos Anjos, cuja primeira feição vem muito diretamente do último livro do Poeta Negro, até que o decisivo encontro com Cesário Verde e o próprio gênio originalíssimo levassem-no a criar um Expressionismo avant la lettre entre nós.

         Sangue se compõe de 48 poemas, dos quais 36 são sonetos, proporção que deve aproximar-se da média da época. Se atentarmos para os sinais externos de escola, é marcante no livro o uso de maiúsculas, e ainda mais marcante o número de títulos em latim, o latim eclesiástico tão ao gosto dos simbolistas de todos os países: “In Tenebris”, “Consolatrix Afflictorum”, o já lembrado “Turris Lucifera”, “Mater”, “De Profundis”, “Lacrimae Semper”, “Ante Noctem”, “Post Mortem”, “Flumen Amoris”, “Soror Doloris”, “Virgo Imponderabilis”, “Turris Eburnea”, “Ignota Dea”, títulos que caracterizariam muito bem um provável leitor do Verlaine convertido ou de Huysmans.

         Como de hábito entre os simbolistas, no seu universalismo espiritualista, o que poderíamos chamar de cor local está quase ausente do livro, não fosse justamente pelo mais célebre poema de Da Costa e Silva, muito sabiamente posto após os dois sonetos de “Mater”, o também soneto “Saudade”:


                              SAUDADE

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...    
As mortalhas de névoa sobre a serra...

Saudade! O Parnaíba - velho monge
As barbas brancas alongando... E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra...


         Sobre esse soneto, dos mais belos da poesia brasileira, escreveu Osvaldino Marques um trecho de uma incompreensão crítica sem lacunas, que é um índice da inutilidade de espiolhar-se a juba do leão quando se trata de arte:


         “Orações gerundiais amiúde. Rimas do mesmo campo lexicológico. O proverbial: “Saudade! Asa de dor do Pensamento!” parece-me um pouco demais écriture artiste na conceituação forçada de um concetto sobremaneira vago. Por fim, implico com a palavra “caburé”, pouco eufônica e, até certo ponto, um localismo, assim como a metáfora de “O Parnaíba — velho monge / As barbas brancas alongando...”


verdadeira aula, para além do pedantismo, de como não ler poesia. Bem mais valiosa é a opinião de Sânzio de Azevedo, em seu importante ensaio “Da Costa e Silva e o sincretismo”, ao afirmar, a respeito de “Saudade”, que


“Apesar de figurar no Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro (1952), de Andrade Muricy, e em outras coletâneas do Simbolismo nacional, a nós não nos parece que seja típico da corrente de Cruz e Sousa. Para nós, ele se aproxima bem mais da dicção parnasiana, em sua vertente brasileira, pela forma trabalhada sem esconder o lirismo romântico.”


observação com a qual concordamos, ressalvando, no entanto, o caráter inegavelmente simbolista da expressão “velho monge” e da belíssima e caluniada “Asa de dor do Pensamento”.



         Muito se discutiu, de fato, a filiação simbolista geralmente atribuída a Sangue, na qual acreditamos totalmente. Além de inumeráveis características outras, seria difícil não classificar como simbolista um livro que contém um soneto intitulado “Josafat”, que termina com os dois seguintes versos:


Verlaine, Mallarmé, Cruz e Sousa, Anto Nobre
Rezam juntos por mim num profano Eucológio.


assim como um soneto tal qual “Ódio bendito”, quase um pendant do “Ódio sagrado” de Cruz e Sousa. Ou um verso tão característico como este, que nos faz pensar em Antônio Nobre ou em Alphonsus de Guimaraens, e que abre a “Canção da Morte”: “Tenho uma noiva: é Dona Morte”. Digno de nota, sob esse mesmo aspecto, é a presença no livro de um estranho caligrama, “Visão de um louco”, que reproduz graficamente o círculo da lua, forma a que o autor retornaria duas vezes em Zodíaco. Se tais extravagâncias gráficas não são de modo algum privilégio do Simbolismo, antes velhas como o mundo e encontráveis mesmo num livro romântico como os Cantos religiosos, de Fagundes Varela, é fato inegável o interesse dos simbolistas por certas experiências visuais, inclusive no aspecto tipográfico dos seus livros, bastando lembrar, a esse respeito, o Rosa Mística, de Júlio Afrânio, o futuro Afrânio Peixoto, que o renegaria, impresso em quatro cores, em 1900, na cidade de Lepizig.

         No livro seguinte de Da Costa e Silva, no entanto, Zodíaco, de 1917, assim como em Pandora, de 1919, fortes características parnasianas se juntam a esse substrato simbolista, embora no primeiro o poeta utilize fartamente um verso polimétrico que nada tem a ver com a escola, verso onde há um provável influxo de Verhaeren, autor de uma das epígrafes do livro e poeta ao qual Da Costa e Silva dedicaria um poema, publicado numa plaquette em 1917. Zodíaco é um livro de impressionante virtuosismo formal. Seria mais do que interessante comparar um soneto fortemente aliterado como “O sapo”, deste livro, com outro de características temáticas e formais muito próximas, como “O porco”, dos “Painéis zoológicos” do já lembrado Mistérios, de José Severiano de Resende — esse um simbolista insuspeito —, para demonstrar como a classificação por escolas é mais do que melindrosa nesse período. Detalhe curioso é a forte presença da figura materna em toda a obra de Da Costa e Silva, como em poucos outros poetas brasileiros é possível constatar.

         O último livro de Da Costa e Silva, Verônica, de 1927, talvez seja, na nossa opinião, o ponto mais alto de sua obra. Trata-se de um livro severamente elegíaco, todo ele uma reflexão sobre o destino, a vida e a morte, com alguns sonetos magistrais e poemas admiráveis como “Diálogo interior” ou “Litania das horas mortas”, esse uma indubitável reaproximação do Simbolismo. Alguns dos últimos poemas de Da Costa e Silva, que nos primeiros anos da década de 1930 entrou num gradativo alheamento psicológico, até o silêncio, como Hölderlin, apontam para uma clara aproximação da estética modernista. “Despertar no Amazonas”, “Carnaval”, “Refrão do trem noturno”, “O carrossel fantasma” parecem indicar os pródromos de uma nova e poderosa fase do poeta. A verdade, por mais inútil que sejam essas reflexões sobre possibilidades não cumpridas, é que não podemos saber qual teria sido o panorama geral da poesia brasileira depois do Modernismo caso não houvessem acontecido as mortes precoces de Augusto dos Anjos e de Raul de Leoni, assim como o silêncio de Da Costa e Silva.

         Mas é Sangue, de um modo ou de outro, que permanece como o seu livro mais icônico, entre outros motivos, talvez, por conter o irresistível “Saudade”, pela força do seu título, por ter sido a estreia de um dos maiores poetas do Brasil naquele momento. Por tudo isso é um importante centenário esse que evocamos, neste ano tão rico em efemérides para a literatura brasileira.



                                                                                                   Alexei Bueno



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

ALGUNS POEMAS MÍSTICOS



                    A SANTA FACE


                                   I

Eu vejo o Monstro que percorre o mundo
Vestido de ossos, e que a vida passa
Tecendo a longa noite da desgraça
Que a boca lhe abre num sorrir jucundo.

Eu claro o vejo, e o seu vestido imundo
Onde um arnês de lágrimas se enlaça
Arrasta a cauda sobre a populaça
Que o tem por pai e por seu bem mais fundo.

E ele assim dança, e onde o seu pé se encrava
Mais uma cova engole a carne escrava,
E os que lá vão dormir, caindo o adoram,

Enquanto os belos deste mundo o odeiam,
Pois são seus pés que o fogo ao mundo ateiam
E abrem a um outro os olhos dos que choram.


                                II

Mas neste chão, em cada cova aberta
Na qual o Tempo um rosto vai trincar,
Eu claro o vejo, sem poder falar,
Que é um Rosto apenas o que a Terra aperta.

E é uma só carne, e tanta carne incerta
Que há de escorrer num pestilento mar,
Tem nela a Efígie em que não pôde arfar
Jamais um verme dos que a Lama oferta.

E ao seu olhar o Monstro apavorado
Ergue a cabeça deste chão cravado
Pelas mil fossas que os seus pés semeiam,

E aos céus urrando, em convulsões mais dança,
Pois prevê como entre os seus pés se entrança
A Messe ardente dos que o Mundo odeiam.


                              III

E que esmagado pelo único Rosto,
Ele, o asco, o Monstro, que arrasou a vida
Para que a Vida fosse então sentida
Se apagará num último desgosto.

E o Universo, no seu peito posto,
Então dará sua última batida,
E em suas veias a Mentira ardida
Se empedrará tal como um sol deposto.

E então da terra, onde mil bocas brotam,
Os que a amam muito, e o Monstro negro enxotam
Dando‑lhe o sangue dos que nele esperam,

Hão de rolar, em podre horror desfeitos...
­Mas nos seus rostos, entre o lodo estreitos,
Não brilha o Rosto onde os mil sóis se alteram.


                                                                                                1983

                       ABJURAÇÃO


Perdão, Senhor, por com teu nome santo
Nomear a tua sombra, que é mentira.
Perdão por te vestir com o ódio e a ira
Que são da tua ausência o escuro manto.

Perdão por te imputar a pena e o pranto
E o mais que em tua luz nunca existira.
Perdão por crer no mal, que a noite inspira,
E em todo este não ser que espanta tanto.

Perdão, por tomar como a tua face
A face que te esconde, e crer um dia
Que teu era este acaso onde o homem nasce.

Perdão, por quem eu fui e nisto cria,
E já não crê, sem mágoa que o traspasse,
Em nada além da límpida alegria.


                                                                                               1983


                   EGOGONIA


É noite no meu quarto de seis anos
E eu não quero dormir. A lua brilha
No espaço como as taças dos tiranos
Que casam com um canalha a própria filha.
A lua gira em círculos arcanos
Na noite de espantosa maravilha.
Há uma luz dentro dela, há alguém que vive
No seu bosque sem cor onde eu já estive.

No lençol sobre o qual estou sozinho
Vejo as luzes do escuro me chamando.
Ninguém me vê. O vento morde o linho
E os vidros sobre a mesa estão brilhando.
Todos dormem, bem longe, e em meu caminho
Só o branco da noite vem chegando.
Lá no morro, entre as nuvens e as centelhas,
Gemeis, árvores, velhas e vermelhas.

Até lá, sobre o piso adulto e frio,
Conduzem‑me os meus pés. As nuvens roncam
Emprenhadas de luz, e o ardente brio
Da tempestade as sonda; se destroncam
Os dedos dos salgueiros no vazio,
E em folhagens as árvores se esmoncam
Todas brancas, na grande noite escura,
Como muros dentados de loucura.

Só eu estou de pé. Os homens dormem
Pela cidade inteira. A só dois olhos
A natureza faz com que se formem
As ondas da tormenta e os seus escolhos,
E até que os seus rugidos se transformem
Em prece para o todo, sobre os sólios
Do monte, uma alma só, uma alma apenas
Presenciará de pé suas forças plenas.

As cortinas se ofendem. Na montanha
As folhas quietas da melancolia
Quais mariposas giram numa estranha
Ascensão vegetal que o vento envia,
Há como um mar no céu que ronca e arranha,
E súbito, a rodar, vomita um dia
Por um raio que imita um tronco ígneo
Mergulhando a explodir no seu desígnio.

É só branca esta noite. Eu bem o enxergo
E o seu fogo só existe para mim.
Estes pontos rodando, eu mesmo os ergo
Com o ar do meu alento, e este sem fim
Chama os meus pés, é a roupa que eu envergo,
E é a única a poder cobrir enfim
O meu corpo, que é o centro; e o orbe celeste
Por haver à sua volta o envolve e veste.

Eu sou o cerne do universo inteiro
Pois só os meus olhos lhe dão luz então,
Ele arfa à minha volta, e um verdadeiro
Redemoinho se faz, como uma unção.
Se os homens dormem, e ébrio é o marinheiro,
E o rico, o parvo, o falso, o alvo e o ladrão,
Se tudo dorme, então só há um eleito,
O que do enorme e vivo faz seu leito.

Só há um eleito. E aos raios que desabam
As minhas mãos se põem a se mover
Comandando‑os na ação com a qual acabam
Com toda a treva, na ânsia de a acender,
E regendo o rugir com que se babam
Em folhas as figueiras a tremer,
Em minhas mãos o cosmo enfim descobre
Quem o entenda a vencer o que o encobre.

Sim. A noite abre em mim a velha estrada.
Meus olhos brilham, na hora os só despertos.
Tudo se move, e eu ouço, a alma encantada,
As vozes sob a terra, os sons incertos,
Os brindes dos que afundam para o nada,
O som dos que então dançam nos desertos,
E as águas a fluir, que sempre fluindo
Não fluem mais, no agora só existindo.

Toda a alma sou eu. O nada é nosso
E é um só, e nele há tudo quanto existe.
Sinto o cheiro do frio. E este destroço
Que é a vida põe de novo a quilha em riste.
Algo é. Algo sabe. Eu sei. E um grosso
Silêncio grita a tudo o que está triste
A voz da força oculta, a ânsia primeira
Que explode, inapreendida, a vida inteira.

Mas eu a vejo agora, enquanto em camas,
Esquecidos de mim, todos não são;
Eu vejo a noite cobrir‑se de escamas
De fúria, e toco com a própria mão
No seu poço sem fundo, onde estas ramas
Que há em sua borda nunca enxergarão
Seu reflexo a olhar de água nenhuma
Pois são a água, o brilho, e a sombra em suma.

Desde quando na treva levantou‑se
A pálpebra da treva, e se acendeu
A íris da visão que ali fitou‑se
E em si mesma a si só reconheceu
Pois era a só que havia, e assim formou‑se
A consciência, o ser, o eu sou, o eu
Que é tudo, porque é, e que em seu ser
Sorve tudo o que é por se saber.

A noite é plena. A consciência a ocupa.
Já mal nenhum no mais persistirá.
Estes que dormem, que possante lupa
Seus olhares reais despertará?
A alma, tal como uma boca, chupa
A si o mar do que há e o que não há.
Os mortos, e os que ainda serão dos seus,
Entre estradas de tudo então são meus.

Horas que sonham, meu olhar redime
Vosso sono profundo do qual fujo.
Às figuras no vaso a noite imprime
Uma longa viagem. Como um sujo
De vida que detona, como um crime
De ânsia, ou o enroscar de um caramujo
Sem fim, com o mar por dentro, o sábio céu
Me olha com astros. É. Tudo sou eu.

Nós somos tudo. O rumo para tudo.
A dor é um cisco. O nome o é também.
Que importa ao homem que desabe mudo
Sobre o caminho? Importa o que ainda há além.
Que braços se abrirão, sem medo ou escudo,
Do tamanho da noite e do seu bem?
Que braços se abrirão até o infinito
Do sonho, como um riso ou como um grito?

Nada tomba. No meu quarto fechado
Aberto até onde nada mais se fecha
A noite se retorce como um quadro
De faces, no qual não há qualquer brecha.
Eu, o vivo noturno, extasiado,
Sinto a alma fugir como uma flecha
Que alvejasse o infinito, indo, portanto,
Para todos os pontos do seu manto.

Lá tudo está escrito. Eu leio a morte
Do horror na grande contorção do vento.
Até a queda sem causa e a sua corte
Retornarão à vida, e sob o alento
Da unidade perdida, e sob a forte
Voz do início final, num movimento
De formas numa só, livres do não,
As almas, como as folhas, dançarão.

Assim tudo brilhou naquela hora
Na alegria que o ser sente por ser.
Em cada grão de tudo o que há por fora
A harmonia do todo a faz crescer.
Só a vida está viva, e com a aurora
Ou sem ela, no palco a acontecer
Ou suspensa no sonho, a mão do artista
Fulge em cada verdade, onde ela exista.

Meu ser portanto é o louco exílio, pois
Está em tudo, e tudo é só o que importa.
Que mal existe em que algo o parta em dois
Se o calmo vento canta contra a porta?
De que vale a sua dor, se vem depois
O sol? Como é pequena uma erva morta.
Só o que importa é o seu salto ao que há além
E o céu gargalha, a compreender também.

Tudo é a alma. No cume a noite clara
Brilha mais do que o dia. Com violência
As cortinas vão alto. O som não pára,
E em meus olhos de estranha refulgência
Sobre as vidas que dormem, se declara
O insondado ascender da onipotência.
No meu quarto, aos seis anos, onde estão
Meus olhos, que não mais se fecharão.


                                                                                                 1984


CANÇÃO DE RETORNO DO VIAJANTE


Após tantas terras
Chego enfim à casa.
Calco a alma das serras.
Soa um vento de asa.

Pela encosta erguida
Fura o luar a mata,
Que úmida ferida
Onde o sangue é prata.

Só a noite sem sonhos
Vem ver‑me a chegada,
E os vultos medonhos
Da névoa gelada.

Só a brisa silente
Me ergue as boas‑vindas
Com sua voz gemente
Das folhagens findas.

Mas lá no alvo vale,
Lá me espera a porta,
E a voz que me fale
Num som que conforta.

Lá me espera o lume
Que eu vi no caminho,
E a taça onde espume
Meu fervente vinho.

Lá em sonhos me anseiam
Muito antigos braços
Que no chão semeiam
Ecos dos meus passos.

Lá na noite dançam
Sombras sem ter hora
Que nunca se cansam,
Nunca... Mas agora

Só o que vejo é a estrada
Negra ainda, e a fronte
Que ergue a madrugada
Desde que desponte.


                                                                                                        1984


               ANASTASIS

Em ti morava a nossa força. Agora
Potente estás na cúpula dourada.
Tudo se curva à mão divinizada
Que indica aos anjos a impensável hora.

Treme a balança que nossa alma explora
Sobre um céu de ouro e de asas levantada.
Teus olhos fundos numa só mirada
Rasgam remorsos ao mortal que implora.

Nossa potência estava em ti. Não tremem
Tuas duas mãos a nos puxar da terra.
Chaves, grilhões, ferrolhos teus pés premem.

E ao som das trompas erguem-se afogados
Que o mar arroja, e leões que um raio aterra
Vão vomitando os corpos devorados.


                                                                           Veneza, 13/4/1992



                      O CENTRO


Deus não nos sonha, mas sua ausência sim.
Aquilo que não é Ele está sonhando
Até estas ruas que vamos pisando
Atrás de algum desconhecido fim.

E o Vácuo ama o seu sono. E é tudo assim,
Um onírico acaso, um curso brando
Com saltos cruéis que não avisam quando,
E em cada esquina um túmulo, um festim.

E por trás desse sonho outros pregressos,
De nós, de outros que nós, e de outros nós,
E a névoa e a noite, e as fugas e os ingressos,

E o sonho em tudo, no antes, no ora e o após.
Enquanto além do Seu nosso oco incerto
Deus é o que é, intrínseco e desperto!


                                                                               4/6/1992


                   VIDÊNCIA


Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!

Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa

Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro

Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.




                                                                            9-11-1998


   DESCOBERTA


Quando, sobre o lago,
Os raios pararem
E os ventos calarem
Seu zunido aziago,

Quando as nuvens forem
Para longe, e a lua
Que, dupla, flutua
Para que as rãs orem

Se apagar, e os astros
Minguarem, e os peixes
Não mais forem feixes
De argentados lastros,

Sem sons, sem reflexos,
Sem margens, sem brilhos,
Sem lago, nem cílios
De olhares perplexos,

Nele enfim, no leito
Livre do ébrio pacto,
O diamante intacto
Brilhará perfeito.


                                                       22-10-2004




NA EXUMAÇÃO DE MEUS AVÓS


Aqui enfim seremos juntos
Um só tronco, uma só terra,
Alheios à paz e à guerra,
Aos vivos como aos defuntos.

Aqui, sem face e sem pele,
Diremos, coro imprevisto,
Que se o real é só isto
Somos maiores do que ele.



                                                              18-2-2009




         O GRANDE ARCANO


Julgas que vives, a morte esperas.
Ambas são falsas. A tua vida
Como a tua morte é uma névoa fluida.
És, sem as duas. Cala entre as feras.



                                                                        1-7-2009




                       A GRANDE OBRA


Altar deserto, o deus foi subtraído.
Mas nele a aranha, ciente e insciente aranha,
Armou a teia, a renda audaz e estranha
Que nunca entrou por qualquer seu sentido.

Vácuo genial cruelmente concebido,
Porta aberta que, sem fechar-se, apanha
As vítimas aladas de sua sanha,
Boca que só na sua acha um sentido.

O altar sem deus se adorna desta rede.
Em casulos de morte a fome e a sede
A aranha saciará, missão das teias.

De suas contas de seda nada nasce,
Enquanto a tecelã nos lança à face
O Logos com suas oito pernas feias.



                                                                           2-9-2015


                       IN ICTU OCULI



Quando, espelho, não mais verei tal rosto?
Quando, ouvidos, não ouvirei tal voz?
Quando serei rendido neste posto
De ser máscara e face, o ofício atroz?

Quando outros olhos e astros verão nestes?
Quando as mãos nunca prenderão mais nada?
E na pele haverá todas as vestes?
E a meta apagará qualquer estrada?




                                                                                           22-12-2015



                          O QUE NOS FALTA


Algo de belo, até que se alcem frontes
E o sangue uno com Deus não se coagule.
Cicatriz de ouro no lápis-lazúli,
Coro triunfal da chuva enfim nas fontes.

Ventos de fúria escalpelando os montes,
Lua a expor-se à matilha até que ulule,
Sorria o louco, o verde sapo pule -,
Cheias a roer a fixidez das pontes.

Convulsão quieta do coral sangrento,
Tudo hipótese apenas, tudo ensaio
Para o erguer da cortina, o invicto evento,

O espanto máximo a que não sucumbas,
Os olhos da coruja à luz do raio,
O pavão, flor a abrir-se, em meio às tumbas.



                                                                                     24-9-2015



                           MAYA


Este véu, denso véu, mil vezes véu,
Quando será dobrado até o alto?
E os falsos olhos, que abre à noite o céu,
Quando a cegueira os tomará de assalto,

A eles, cegos? Quando, num sobressalto,
Não sentirá um jugo sempre seu
Nossa cerviz? E no negror do asfalto
A via surgirá que se perdeu?

Quando as portas serão mais que a muralha,
O exílio volta, a morte que se espalha
Menos que a mestra ideal triunfadora?

Quando numa manhã raiarão todas?
Sem mais batismos, féretros, nem bodas,
E as horas todas serão só esta hora?



                                                                                       20-1-2015




                   OS ESPLENDORES


No teto de São Salvador em Chora
Ergue o Cristo das tumbas, pelas mãos,
Um velho e uma anciã, ímpios irmãos
Cujos nomes há muito se decora:
Adão e Eva, espectros malsãos,
E a flor dos ressurrectos fita e chora.

Do próprio fosso apenas por teus braços
Te erguerás. Dentro dele nada há intacto,
Pedaços de manhãs, luar putrefacto,
Risos no leito ao sol, trôpegos passos,
Chuva a abater o belicoso cacto,
Rosa sangrenta, esfarrapados laços.

Ainda uma vez tudo borbulha, cresce,
Ferve do que já foste. É mutilado
Que o portal transporás de lado a lado?
Aqui estás, mas és mais do que aparece
Neste átimo à mentira consagrado,
Rente à vítrea prisão que nada esquece.

Como o Cristo no Limbo arrancarás
Tudo do havido e do nunca chegado,
O que foi, por ter sido; o inalcançado
Pelo escárnio com a busca, e, o que é bem mais,
Verás o incancelável cancelado,
O mal tornado um sonho, ao longe, atrás.

Verás então as formas persistentes
Do sonho — são tua casa —, o alto talude
De Comagena, os touros de Nimrud,
Pérgamo ao sol, os capitéis potentes
De Halicarnasso, quanto a morte ilude
Por poucas vidas, ascensões cadentes.

Pois entre elas virás com teu tesouro,
Teu tributo à única e lúdica loucura,
Fogueira ao luar, danças na praça escura,
Olhos que o sol tornava contas de ouro,
Versos de amor, heras na sepultura,
Cães a ganir, mirar do sorvedouro.

Tudo, o sonho, o esplendor, o que é a colheita
De antes que Shiva acorde e tire Kali
De cima dele os pés, de antes que fale
A estreita boca que o profano enjeita,
E o Ancião dos Dias fite enfim o vale
De entre Ele e Ele, que a outra aurora espreita.




                                                                                       29-9-2015